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quinta-feira, 3 de julho de 2008

painting

De olhar alucinado, tremo como uma louca na noite em que me descobres. Descobres-me novamente, como há tantos anos me havias descoberto. Uma louca por tudo o que me fizeste e outra por tudo quanto juntos podíamos ter feito.

Devias deixar tudo morto no passado. Devias deixar-nos em paz. Devias saber melhor. Ambos merecemos ser felizes. Sabes que o temos que fazer um sem o outro. Sem nos redescobrirmos, sem nos falarmos, sem nos olharmos. Já é suficientemente difícil viver com a memória e com a imagem do que poderíamos um dia ter sido e nunca fomos.

A mim, é-me suficiente saber-te longe e feliz, na tua vida. Para ti, o melhor é não saberes mesmo nada de mim.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Viagem

Esta é a história de um homem cuja esposa viajava a trabalho amiúde. Passava semanas fora e voltava para casa apenas alguns fins-de-semana por ano.

O homem desesperava pelas suas longas ausências. Queria acima de tudo viver o dia-a-dia dela e vê-la sorrir. Queria que ela partilhasse o seu dia-a-dia também. Já agora, dar-lhe uns beijos e passar a mão pelas curvas impetuosas. Sentia-se sozinho, sentia um montão de saudades dela e vivia angustiado por saber que um dia ela podia não voltar. Podia encontrar outro homem... um que a entendesse verdadeiramente e a fizesse feliz.

Passaram-se anos assim, e aos poucos, ele foi deixando de sentir a sua falta. Habituou-se a estar sozinho e a fazer a sua vida como queria. No dia em que ela ligou a dizer que vinha para casa "de vez", ele arrumou a trouxa e nunca mais ninguém o voltou a ver.

sábado, 3 de maio de 2008

Escada sem corrimão


É uma escada em caracol

e que não tem corrimão.

Vai a caminho do Sol

mas nunca passa do chão.

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Os degraus, quanto mais altos,

mais estragados estão.

Nem sustos nem sobressaltos

servem sequer de lição.

.


Quem tem medo não a sobe.

Quem tem sonhos também não.

Há quem chegue a deitar fora

o lastro do coração.

.


Sobe-se numa corrida.

Correm-se p'rigos em vão.

Adivinhaste: é a vida

a escada sem corrimão.

.


David Mourão-Ferreira

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num dos meus poemas favoritos

que decidi hoje partilhar convosco

por falta de tempo para mais e melhor.

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Bom fim-de-semana a todos!

quarta-feira, 26 de março de 2008


Gastas estão as pedras que palmilho,
Longe, os tempos em que esperança me nutria.

Gasta está a razão e a vontade,
Longe, a paciência de outrora.

Que serei? Que farei?
Não sei...

Do que sou estou gasta,
Do que serei, longe.

O futuro querido aparta-se.
Correndo, vejo-o afastar-se.

Sento-me exausta,
Vendo-o desaparecer e
Desejo ser outra
Sendo eu.

domingo, 2 de março de 2008

My funny valentine


Nua... é como me sinto sempre que me olhas. Sinto-me como um cartoon com balões de pensamento a pairar sobre a minha cabeça. Sinto que o teu olhar me atravessa e sentes o que mais me dói - a alma. Sentes como tua, a minha angústia de uma vida adiada, com os sonhos cada dia mais esbatidos. Sentes o meu cansaço, a minha dor, a minha frustração como tua. Conheces os meus medos e os meus mais terríveis segredos. Sabes o que nem ébria conseguiria confessar a mim própria. Olhas-me e vês-me como nunca me vi. Vês tudo aquilo em que falhei, vês tudo o que desisti de ser. Vês-me chorando, outras vezes sorrindo; vês-me completa, com tudo o que mostro e o que a tanto custo escondo. Vês-me, sabes-me, conheces-me no meu pior, e contudo, amas-me... Sentas-te a meu lado e fazes-me aninhar em ti.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Este texto já o havia escrito num outro blogue, que partilho com a Cati. Hoje "posto-o" aqui, para ver se as visitas lá no outro lado aumentam e nos entusiasmam a escrever mais nele... quem estiver interessado, clique e vá lá ver.


Com a mão tremendo e o coração dormente, escrevi-te.
Ainda que não o saibas, quero-te. Quero ver-te mais uma vez. Quero olhar nos teus olhos e ver o brilho dos meus reflectido nos teus. Quero o encontro. A simbiose perfeita das nossas almas. Quero sentir que me sentes como te sinto. Quero que sejas eu e ser tu. Quero sentir as tuas dores. Quero lamber as tuas feridas. Quero levar-te e deixar-me levar. Para longe. Para um lugar só nosso, onde a luz incida suavemente para não magoar. Um lugar onde a minha voz não seja mais do que um eco da tua. Um lugar onde podemos estar. Sós, abraçados, despidos não só de roupa, mas também de tudo quanto não somos nós. Um lugar em que as almas se toquem. Um lugar onde possam brincar felizes. Um lugar onde não sentimos fome, nem frio, nem necessidade de algo mais do que o essencial - o outro.

Com carinho,
another left hand

domingo, 13 de janeiro de 2008


É noite. Mergulho na água morna de um lago negro e profundo. Sem medo, não venho à tona para respirar. Concentro-me e nado para o fundo. Sinto a água a passar pela pele, acariciando-me e um profundo prazer de morrer como sempre sonhei. Não páro. Continuo seguindo para o fundo. A fraca luz do luar iluminando as rochas que me rodeiam e o desejo de permanecer ali para sempre. Já sem forças e sem folêgo, perco os sentidos e deixo-me afundar lentamente.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Encontrámo-nos naquele dia, passado muito tempo de nos falarmos apenas e ocasionalmente. Adiáramos o nosso rendez-vous por muito tempo. Para que fosse mais desejado, para que nos fosse mais precioso. Porém, naquela manhã, o medo apoderou-se de mim. Era cedo, ou talvez tarde… ainda não havia chegado a hora, ou talvez já tivesse passado. Não estava preparada. E se te desiludisse? E se me desiludisses?
Um céu nublado espelhava as minhas emoções, sem saber se devia chover ou deixar o sol brilhar. Combináramos encontrarmo-nos no jardim perto daquele cinema de que tanto gostava. Não sabia exactamente onde era o sítio de que me falaras. Não foi difícil reconhecer-te. Parado, de pé, encostado a uma árvore, vestido de escuro, com ar ansioso, fumavas um cigarro e olhavas para o relógio. Estava atrasada. Apenas 10 minutos, como era meu costume. Mas tu não o sabias.
O choque da visão, levou-me a afastar-me antes que me visses. Observei-te durante uns minutos enquanto ganhava a coragem que parecia fugir-me a cada segundo. Meu Deus… Ansiava por tocar-te. Passar a mão suave e levemente pelo teu rosto, roçar os meus lábios pela tua barba de dois dias, o meu nariz frio na pele quente do teu pescoço, descortinando esse teu cheiro. Fiquei ali, ao abrigo de uma árvore, estática, vidrada em ti. Perdida nos meus pensamentos.
Olhaste em roda e mesmo vendo-me, não me viste. De novo olhaste o relógio. Desilusão estampada no rosto… e foste embora.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Um Natal Diferente

Este desafio de Natal começou aqui pela mão magistral de Carlos Lopes, passou por mais uma quantas e veio cá parar vindo da mais bela laranja.

"As luzes de Natal iluminavam-lhe a cara e incendiavam-lhe as lágrimas com tonalidades de falsa animosidade natalícia... e eu não resisti a abraçá-la, à Inês, à minha filha que acabara de conhecer. A Teresa juntou-se a nós e senti-lhe o calor e o cheiro e voltei a desejar nunca a ter deixado de fora da minha vida."



Ficámos abraçados ainda durante algum tempo, matando as saudades do que nunca tiveramos. Depois elas recolheram aos quartos e eu, por fim, fi-lo também.

O quarto intacto desde há longos anos, o ligeiro cheiro a bafio no ar, a roupa da cama tão fria que parecia molhada... ou talvez não tivesse sido isso. Talvez fosse os próprios acontecimentos do dia. No mesmo dia, descobrir que se tem uma filha e que se vai ser avô, deixaria a cabeça num turbilhão a qualquer um e dificilmente conseguiria adormecer. Levantei-me, vesti o meu velho robe de xadrez e desci as escadas que rangeram no mesmo degrau que rangiam há 20 anos. Subitamente, foi como se não conseguisse respirar. O ar rarefeito, uma tontura, um mal-estar, um sabor acre na boca e lembrei-me do porquê ter partido, tantos anos antes. Passei a correr pelo alpendre envernizado, ajoelhei-me na neve e vomitei enquanto na testa gotas de suor escorriam. Senti vontade de novamente partir, de nunca ter voltado. Fugir e cortar para sempre as amarras que agora sabia ter naquele lugar. Mas como poderia fazê-lo? Voltei para dentro de casa, tomei um longo e quente banho e deitei-me no sofá em frente à lareira a ler um livro, um velho livro de Júlio Dinis, curiosamente entitulado "Serões da Província", até que adormeci.

Na manhã seguinte acordei bastante cedo e um pouco mais calmo. A noite havia sido boa conselheira. Fiz o pequeno-almoço para todos: panquecas, torradas, manteiga e doce na mesa; leite e café a fumegar em cima do fogão. Deve ter sido o cheiro a café fresco que acordou Teresa, pois surgiu no cimo das escadas nesse instante. Como em rapaz, o coração acelerou-se-me no peito e sorri, dizendo-lhe: "Estás deslumbrante neste Natal"! Enquanto isso, o tumulto dentro de mim serenou e soube que era ali que pertencia. Pertencia àquela casa, àquela família, ao lado daquela mulher maravilhosa que durante vinte anos me soubera esperar. Os olhos humedeceram-se com a certeza do que queria.

Só havia um problema: o meu trabalho era a mais de trezentos quilómetros dali, não poderia continuar a fazê-lo na aldeia e era demasiado novo para me reformar. Tinha tirado o dia 24 de férias, mas a 26 teria que voltar a apresentar-se. Teria que dizer-lhes a todos que no dia seguinte, dia de Natal, à noite, voltaria para casa. Larguei a caneca de café amargo que tinha na mão em cima da bancada, aproximei-me dela e beijei-a com o desejo que vinte anos podem carregar.

Este texto louco deve ser continuado neste mundo...

segunda-feira, 26 de novembro de 2007


Estamos diante da Porta Elvira, com as suas treze ameias. Todo o sol da Andaluzia cai pela encosta de Alhacaba. Daí, do Bairro de Carmen, saem os dois ciganinhos de que te quero falar. O mais pequeno, muito contente, bate as palmas. Tem o cabelo encaracolado. Os pés vão descalços sobre as pedras do caminho. Que idade terá ? Pouco mais de cinco anos. O mais velho é que já deve ter dez.
Com a roupa dos dois irmãos talvez se pudesse vestir um deles completamente.
O mais pequeno dança à volta do mais velho. Este vai com um ar importante, levando nas mãos um púcaro de leite. E começa o diálogo:
– Senta-te. Primeiro bebo eu e depois bebes tu.
Se o tivesses ouvido! Dizia aquilo com ar de imperador. O mais pequeno olhava para ele mexendo a ponta da língua.
Eu, como um tolo, contemplava a cena.
O mais velho leva o púcaro à boca e, fazendo o gesto de beber, aperta fortemente os lábios para que por eles não entre uma única gota de leite.
Depois, estendendo o púcaro, diz para o irmão:
– Agora é a tua vez. Só um pouco.
E o irmãozinho bebe com muita força.
– Agora sou eu outra vez.
E repete a cena, completamente indiferente aos meus olhares. Leva à boca o púcaro, já meio vazio, e não bebe.
– Agora tu.
– Agora eu.
– Agora tu.
– Agora eu.
E, depois de vários goles, o rapazinho de cabelo encaracolado, com a camisa de fora, esgota o leite.
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Esses "agora tu, agora eu" encheram-me os olhos de água.

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Jesus Urteaga ("ligeiramente" adaptado)!

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Sem título

foto por Helder Capela - 1000 imagens

No céu estrelado
Nos perdemos em olhares
Vagos, profundos, pensativos,
Cheios de desejo.

Nos colchões rolámos
Entre corpos, almas e corações
Sentimentos tantas vezes traídos
Expectativas tantas vezes goradas
E mais nos desejamos ainda.

Apunhalados, escorridos,
Vazios e ainda querendo mais
Deste amor que nada traz,
Que nada pode dar,
Mas que decidimos viver
Enquanto ele durar.

sábado, 27 de outubro de 2007

Elogio do Amor Parvo... aquele, o Puro

Se existem coisas neste mundo que não são para se perceber bem, esta é uma delas. Este meu post vai ser confuso, vai soar confuso e, provavelmente vocês vão sentir-se confusos ao lê-lo. Se não se sentem com coragem para ler, o melhor é desistir já. Muito do que se vai seguir, é mesmo incompreensível. A culpa não é minha. Serei clara. O problema é que eu própria percebo muito pouco do que tenho para dizer. De qualquer das formas, sinto que tenho de dizê-lo.



O que eu quero é fazer um elogio ao amor puro. Às vezes penso que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver o amor platónico, o amor impossível. Quem é que aceita amar sem uma razão? Esquecem-se porém que o amor tem razões que a própria razão desconhece. Li, há muito tempo, num lugar qualquer, que um gajo do antigamente se meteu num navio para ir atrás de uma rapariga que não conhecia, com quem nunca tinha falado. Deu por ele em Inglaterra. Estava apaixonado, coitado! Quando conseguiu falar com ela, desiludiu-se. Quem é que hoje em dia é capaz de se apaixonar assim?



Agora as pessoas apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas de trabalho e estão mesmo ali à mão de semear. Porque não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque traz dinheiro. Porque fica mais barato. Porque dá para comprar uma casa. Por causa da falta de sexo. Por causa da roupita e das contas do supermercado. Fazem-se contratos pré-nupciais, discute-se tudo de ante-mão, de quem é o carro, e o frigorífico, e o sofá da sala, fazem-se planos e à mínima merdice entra-se "em diálogo". Combina-se o amor. Os amantes tornaram-se sócios. Reúnem-se. Discutem situações. Tomam decisões. O amor, esse sentimento que devia ser desmedido, é na medida do possível. Resultado: as pessoas, em vez de se apaixonarem de verdade, ficam praticamente apaixonadas.



Estou já farta de conversas, farta de compreensões e entendimentos, farta das conveniências. Nunca vi namorados tão embrutecidos, cobardes e comodistas como os de hoje. São uma raça de telefoneiros e conversadores de msn, pessoal do "tá-se bem", "na descontra", matadores de romance... Será que já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim, a tristeza de morte, o medo, o carrossel emocional que leva ao desequilíbrio mental, o custo, o amor - essa doença que é como um cancro a comer-nos o coração e que nos canta na alma e nos rebenta o peito de alegria e sofrimento, tudo ao mesmo tempo?

*****
Ainda que eu falasse
A língua dos anjos
Se não tivesse amor
Seria como um sino ruidoso
Ainda que tivesse o dom da profecia
O conhecimento de todos os mistérios
E de toda a ciência
Ainda que tivesse toda a fé
A ponto de transportar montanhas
Se não tivesse amor
Nada seria
O Amor é paciente
O Amor é prestativo
Tudo espera
Tudo suporta
O Amor jamais perecerá
As profecias desaparecerão
As línguas cessarão
A ciência também desaparecerá
Agora portanto permanecem
A fé, a esperança e o amor
A maior delas, porém
É o Amor
A maior delas, porém
É o Amor
Este poema não é de minha autoria; foi retirado da banda sonora de um filme - "3 cores: Azul", que acabei de ver há pouco... andava ali a rebolar na sala há imenso tempo, porque sou estúpida - se soubesse o que andava a perder, tinha visto há mais tempo.