Este desafio de Natal começou aqui pela mão magistral de Carlos Lopes, passou por mais uma quantas e veio cá parar vindo da mais bela laranja.
"As luzes de Natal iluminavam-lhe a cara e incendiavam-lhe as lágrimas com tonalidades de falsa animosidade natalícia... e eu não resisti a abraçá-la, à Inês, à minha filha que acabara de conhecer. A Teresa juntou-se a nós e senti-lhe o calor e o cheiro e voltei a desejar nunca a ter deixado de fora da minha vida."

Ficámos abraçados ainda durante algum tempo, matando as saudades do que nunca tiveramos. Depois elas recolheram aos quartos e eu, por fim, fi-lo também.
O quarto intacto desde há longos anos, o ligeiro cheiro a bafio no ar, a roupa da cama tão fria que parecia molhada... ou talvez não tivesse sido isso. Talvez fosse os próprios acontecimentos do dia. No mesmo dia, descobrir que se tem uma filha e que se vai ser avô, deixaria a cabeça num turbilhão a qualquer um e dificilmente conseguiria adormecer. Levantei-me, vesti o meu velho robe de xadrez e desci as escadas que rangeram no mesmo degrau que rangiam há 20 anos. Subitamente, foi como se não conseguisse respirar. O ar rarefeito, uma tontura, um mal-estar, um sabor acre na boca e lembrei-me do porquê ter partido, tantos anos antes. Passei a correr pelo alpendre envernizado, ajoelhei-me na neve e vomitei enquanto na testa gotas de suor escorriam. Senti vontade de novamente partir, de nunca ter voltado. Fugir e cortar para sempre as amarras que agora sabia ter naquele lugar. Mas como poderia fazê-lo? Voltei para dentro de casa, tomei um longo e quente banho e deitei-me no sofá em frente à lareira a ler um livro, um velho livro de Júlio Dinis, curiosamente entitulado "Serões da Província", até que adormeci.
Na manhã seguinte acordei bastante cedo e um pouco mais calmo. A noite havia sido boa conselheira. Fiz o pequeno-almoço para todos: panquecas, torradas, manteiga e doce na mesa; leite e café a fumegar em cima do fogão. Deve ter sido o cheiro a café fresco que acordou Teresa, pois surgiu no cimo das escadas nesse instante. Como em rapaz, o coração acelerou-se-me no peito e sorri, dizendo-lhe: "Estás deslumbrante neste Natal"! Enquanto isso, o tumulto dentro de mim serenou e soube que era ali que pertencia. Pertencia àquela casa, àquela família, ao lado daquela mulher maravilhosa que durante vinte anos me soubera esperar. Os olhos humedeceram-se com a certeza do que queria.
Só havia um problema: o meu trabalho era a mais de trezentos quilómetros dali, não poderia continuar a fazê-lo na aldeia e era demasiado novo para me reformar. Tinha tirado o dia 24 de férias, mas a 26 teria que voltar a apresentar-se. Teria que dizer-lhes a todos que no dia seguinte, dia de Natal, à noite, voltaria para casa. Larguei a caneca de café amargo que tinha na mão em cima da bancada, aproximei-me dela e beijei-a com o desejo que vinte anos podem carregar.
Este texto louco deve ser continuado neste mundo...





