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sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Despontar... capítulo final


Passados dois dias, ainda eu não me sentia capaz de continuar a viver, capaz de sair e enfrentar o mundo, capaz de sentir e aguentar o teu olhar de desprezo, apresentaste-me a tua nova namorada. Não tenho adjectivos que possam descrever de alguma forma os meus sentimentos. Como se dentro de mim não houvesse nada senão água, e uma vez a pele desfeita, não passasse de uma poça de água dispersa no chão. Durante alguns meses vivi assim. Sem sentir alegria nem dor. Sem sentir. Passávamos um pelo outro, não nos falávamos, não nos olhávamos.
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Passados quatro meses o telefone finalmente tocou. O que ouvi, espantou-me, matou-me e fez com que me refizesse. A chorar, com voz rouca disseste: "Que fui fazer? Está grávida, Maria! Ela está grávida. Não sei o que fazer. Tens que me ajudar". Então, de lágrimas nos olhos e pensando que não havia mais nada que aquele homem me pudesse fazer, nenhuma forma mais vil de me magoar, respondi gloriosamente, com uma voz suave e firme ao mesmo tempo: "Agora vais ter que ganhar juízo e começar a usar a cabeça de cima para pensar. Afinal de contas, deves isso ao teu filho". Desliguei.
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Chorei. Chorei-me durante muito tempo. Chorei-te como se tivesses partido. Chorei-nos como se tivéssemos morrido. E tínhamos morrido de facto. Chorei até que a dor que o inchaço nos olhos me causava, não me permitisse chorar mais. Sentada na margem de um rio de águas paradas e turvas, via-me à tona a boiar, sem saber se estava morta ou apenas moribunda. As nossas vidas haviam capitulado. A tua para sempre. A minha, saiu do coma profundo passado um tempo. Saí da água, encostei-me a uma rocha e sequei ao sol.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Despontar... part VIII

Encolheste os ombros e não respondeste. Agarrei nos meus livros e fui-me embora.
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Nessa tarde, tocaste-me à campainha. Abri a porta sem saber que eras tu, pensando que era o carteiro ou publicidade, porque quando perguntei "quem é?", não respondeste. Quando te vi, o meu espanto foi abismal, mas tu mostraste-te calmo. Estavas calmo? Entraste assim que a porta se abriu o suficiente para que o pudesses fazer. Fechaste a porta enquanto eu recuava perante o teu olhar determinado. "Está frio e quero-te", foi só o que disseste. Avançaste para mim tão rapidamente quanto eu recuei aterrorizada pela ideia de ser feliz, pela ideia de concretizar o que talvez quisesse apenas continuar a sonhar. Só paraste quando, comigo já encostada à janela, pisando a ponta do cortinado, estavas suficientemente perto para te sentir a respiração ofegante e murmuraste "Bate-me. Eu sei que mereço". Na minha loucura, no meu desespero, num transe de quem não se sentia fazendo parte deste mundo, bati-te com quanta força tinha, reconhecendo porém que, com o tremor, não era muita. Avançaste mais então e com a força de quem não treme e sabe o que faz, beijaste-me de uma forma que eu desconhecia ser possível beijar e ser beijado. A visão ficou turva, o olfacto e o tacto inebriados com tanto em tão curto espaço de tempo, o cérebro em branco. Não parámos sequer quando o cortinado e respectivo varão cederam às leis da gravidade, e embrulhados ficámo-nos ali no chão.
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O meu nervosismo era revelador da minha inexperiência, e quando, abraçados, me confessaste a medo que estavas completamente apaixonado por mim, não soube o que dizer. Não queria pensar. Não queria dizer nada. Não queria estragar. Continuei como estava, cabeça assente no teu peito, gozando o momento, ouvindo o teu coração batendo acelerado. Não sei quanto tempo assim permanecemos. A mim pareceu-me dois segundos, mas sei que terá sido bastante mais. Sei também que deves ter pensado que já teria passado tempo mais que suficiente para eu te ter respondido, caso tencionasse fazê-lo. Levantaste-te indignado, vestiste-te em fúria, vieste até bem perto de mim, olhaste-me bem nos olhos e balbuciaste entre dentes: "És uma vaca". Saiste, batendo com a porta.

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(last chapter, maybe tomorrow)

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Despontar... part VII


Recordo com especial saudade aquele dia. O pálido sol de Inverno iluminava tudo com um tom desmaiado e o frio rigoroso do interior gelava até aos ossos. Contudo, o meu dia foi quente e as cores nunca me pareceram tão vivas. Logo pela manhã, feriado a uma aula de duas horas. Acercaste-te de mim, meteste-me o teu blusão pelos ombros e perguntaste-me ao ouvido, com uma voz doce, se queria ir tomar uma bebida quente.
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Surpreendida, anuí com um acenar de cabeça, mas eram tão raros os momentos em que estávamos juntos, a sós, sem ser ao telefone, que me parecia tudo forçado, pouco natural. A conversa não fluía, o silêncio arrastava-se enquanto eu pensava "Porquê, meu Deus? Porque é que lhe está a dar para isto hoje? Não costuma ser querido".
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Estranhamente, ficaste. Sem conversas, sem gozos, sem discussões - ficaste. Ficámos durante uma hora sentados juntos, lado a lado. Mãos a aquecerem-se nas chávenas escaldadas, fumando pensativamente, vendo as pessoas passarem apressadas, fugindo ao frio.
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Pensei ver o momento aproximar-se. O momento em que me afastarias o cabelo e que, com a mão no meu pescoço, me dirias o que há tanto ansiava por ouvir.
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Entretanto, juntaram-se a nós outros colegas que procuravam abrigar-se do frio. Conversavam animadamente entre si. Nós continuámos calados. Não tão juntos.
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Ao fim de duas horas à espera do momento, tirei o teu blusão dos meus ombros, devolvi-to e disse: "Vou para casa". Esbugalhaste os olhos, atónito, como se te tivesse espetado uma faca e exclamaste: "Não! Fica"! Os olhos embargaram-se-me de lágrimas que podiam bem ser motivadas pelo vento cortante. O nó na garganta alastrou-se a todo o corpo e mal me consegui ouvir a perguntar-te: "Porquê? Porque hei-de ficar?". "Porque sim. Porque to peço", foi a resposta. "Sim... mas porquê?", insisti.
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(to be continued)
photo: Juliette Binoche; source: google

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Despontar... part VI


Nunca fui magra, mas nas horas que se seguiram, não sentia os pés no chão. A minha alma voava lá no alto e o meu coração saiu disparado, correndo leve como nunca tinha corrido, por lugares que nunca tinha sentido. Como te sentiste tu, não sei. Sei que aquele momento alterou por completo a minha vida, mudou a minha forma de estar e de sentir, nunca eu havia sido tão feliz, e fez-me admitir a verdade, pelo menos para comigo: estava irreversivelmente apaixonada por ti. Sentia o teu cheiro no ar sem que estivesses por perto. Era para te ver que todos os dias me levantava. Era para vibrar com a tua voz que te ouvia, muito embora muitas das vezes não ouvisse realmente o que dizias... viajava. Viajava até ti, sentia-te, sentia-me em ti e sentia em nós a raiva bruta por não conseguirmos mais controlar nem disfarçar os sentimentos loucos pelos quais éramos levados a dizer e cometer as mais horríveis e as mais belas loucuras. Dias de ir às lágrimas de tanta dor que nos causávamos, dias de sonhar com novo encontro e de o desejar ardentemente, com o sangue a fervilhar e os dedos a tremer. Curiosamente, só não parecíamos desejá-lo no mesmo dia, à mesma hora. Isso dificultava as coisas... como o nosso orgulho era enorme. Nenhum iria mostrar ao mundo o que sabíamos ambos em privado. De dia mal nos olhávamos; à noite, passávamos horas ao telefone e eu sentia-me qual Cinderela do Carlos Paião... "e são namorados sem ninguém pensar"! Não que nos declarássemos ao telefone ou disséssemos umas lamechices. Não. Falávamos de banalidades, de algum colega, de algum professor que tivéssemos em comum, ou não. Falávamos de algum projecto que tivéssemos para fazer, do fim-de-semana, das férias que tinham passado ou que estavam a chegar, de roupa, de cinema, de música... muitas vezes discutíamos. Algumas vezes, esgotado o tema de conversa limitávamo-nos a ficar com a orelha encostada ao telefone a ouvir as conversas que se passavam na casa do outro. Foi assim que fui testemunha silenciosa de discussões que por vergonha nunca fui capaz de tas comentar. E vice-versa. Foi assim que fiquei a conhecer quase tudo o que sei a teu respeito. Sem que as pessoas ao nosso redor o suspeitassem, tornamo-nos muito íntimos e conhecedores do que se passava pela cabeça do nosso outro "eu". Mas claro, também este estado de graça chegaria ao fim.
(to be continued)

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Despontar... part V


Na semana seguinte, apercebi-me do quanto ainda teria que pagar por me ter apaixonado pela pessoa errada. Eras um verdadeiro cabrão e deixavas-me cega de desejo. E muito embora fosse só quereres-me, tu tinhas outras coisas em vista! A tua vingança chegou em todo o seu esplendor! Fim de período - jantar de Natal! Conversámos animadamente à mesa do jantar, mais do que alguma vez faláramos antes. Tu, entre mim e as minhas amigas. Ríamos, deliciados com a presença um do outro. O jantar acabou quando o senhor veio varrer o chão por debaixo das nossas cadeiras. Saímos para a rua. Estava um frio de rachar numa noite de Dezembro sem nuvens. Perguntaste-me onde queria ir beber um copo. Respondi que não podia. Tinha que ir para casa. Era tarde. Tinha horas a cumprir. Os meus pais não eram para brincadeiras. Deste-me um olhar de desprezo, ao qual eu retribui com um olhar de "desculpa-me, queria mesmo ficar contigo"!

Fui embora. No dia seguinte, ao telefone a minha melhor amiga chorava... tinha que falar comigo. Fui a casa dela e então soube... Ela havia ficado mais tempo, a meia dúzia de pessoas que tinha ficado foram para um bar, beberam... Tu ofereceste-te para a levar a casa e o teu encanto havia-lhe sido irresistível. Que fazer, que dizer? Chorando, ela pedia-me perdão. Dizia-me que tinha sido uma loucura momentânea, um acto irreflectido, fruto do alcóol. E eu... perdoei. A ti, deixei de olhar para a tromba. Que doce sabor de vingança deves ter experimentado então. Odiei a pessoa pouco digna em que me transformaste.

A minha vida seguiu vazia e desprovida de sentido, tentando ignorar a tua existência nos meses que correram. Até ter caído em Educação Física. Torci o pé. Fui mandada mais cedo para o balneário. Tomei um duche quente e demorado, enrolei-me na toalha e parei junto ao lavatório, lavando as areias presas nos ténis, antes de os arrumar dentro do saco.

Umas mãos tapam-me os olhos, uns lábios deslizam pelo meu pescoço. Sou encostada com força contra uma parede, e antes de ter forças para gritar, sinto a tua língua nos meus lábios, o teu beijo sequioso, o peso do teu corpo contra o meu, a tua mão a subir-me pela perna até ao rabo que apertas com prazer visível no teu olhar... "Vim só ver se estavas bem" e foste-te...

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Despontar... part IV


Libertei-me de ti, libertei-me do teu peito sem me sentir. Lentamente, virei costas e vi-me afastar como se me olhasse de cima, como se não fosse eu quem me comandava. O corpo, não o sentia como meu. A minha mente, incapaz de pensar, de decifrar os meus sentimentos tão contraditórios, seguia no automático. Petrificada pelo misto de emoções, fui-me, incapaz de voltar para trás e de te pedir que me agarrasses de novo e assim ficasses para sempre.
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Quando finalmente consegui parar de andar, e sentar-me, e pensar no que tinha acontecido entre nós, convenci-me de que no dia seguinte teria coragem. Abordar-te-ia, falar-te-ia ao coração, far-te-ia compreender o meu medo, pedir-te-ia perdão e entregar-me-ia a ti, para que fizesses o que entendesses de mim.
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Quando, de manhã, cheguei, tu já lá estavas. Sorri para ti. Tu desviaste o olhar. Na minha mesa encontrei um pedaço de papel. Pensei compreender... Era teu. De quem mais poderia ser, senão teu, meu Amor? Querias combinar qualquer coisa comigo... Desembrulhei o pedaço de papel, com as mãos a tremer de emoção. Li: "Desculpa. Fui fraco. Está descansada. Não volta a acontecer".
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Senti-me novamente como se eu não me pertencesse. Não te pertencia. Não era de ninguém. Perdi-me. Toldou-se-me a alma e os olhos de lágrimas, o coração desfez-se em bocados de sangue e sofri. Sofri porque perdi o que queria e quando pude tê-lo não soube agarrá-lo.
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Mas não. Não podia ser. Não podíamos ficar por ali... eu sabia que não podia. Tinha-lho visto. Ele amava-me. O momento tornaria a aparecer. E aí, não me tremeriam mais as mãos, as pernas estariam firmes e o meu coração preparado. "Pensa, boneca. Arranjarás uma forma de compôr tudo", pensei para comigo. Mal eu sabia que só estava a começar a pagar pelos meus erros...
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(to be continued)

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Despontar... part III

foto site: fotosensível.com
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Não sei como nem se foi a partir daí que a nossa relação se revelou de completo amor-ódio. Sei que os insultos parte a parte começaram a ocupar um grande bocado dos nossos dias. Tu agredias-me verbalmente até que eu, que nunca fui adepta de acesas discussões, me irritava de tal forma, que te respondia na mesma moeda. Discussões intermináveis, que me deixavam exausta e triste. Tu sabias como tocar nos meus pontos fracos, magoar-me e mesmo sem nunca conversarmos, tornavas claro que me conhecias intimamente. Não tinhas qualquer pudor em usar o teu poder sobre mim até me levares à loucura.

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Certo dia, desvairada, esbofeteei-te com todas as minhas forças. Paraste, surpreendido. Recuperaste do espanto em dois segundos, voltando a insultar-me logo de seguida... Oh situação arrasadora... Levantei de novo a mão que agarraste com força, e com segurança, puxaste-me para que não pudesse escapar de ti, do teu cheiro que ainda hoje sinto, e olhámo-nos profundamente. "Beija-me", disseste, afrouxando a mão do meu pulso e o braço da minha cintura. Fitei-te ainda durante uns momentos, hipnotizada com a doçura dos teus olhos, esse brilho, esse fogo que nunca se te apagou e que lembrarei sempre. Lia em ti o desejo que era meu, a paixão na expressão do teu olhar, a pressa de saciar a sede de que sofríamos, que nos envolvia e que tomava conta de nós. Aquele querer de quem não quer querer, mas ainda assim o quer. Ainda presa em ti, olhando-te, não sei explicar o que me passou pela cabeça.
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(to be continued)

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Despontar... part II


No dia seguinte, enquanto me vestia dei por mim a pensar no que tu acharias do meu "outfit"... e não te odiei. Odiei-me a mim e ainda assim, vesti-me para ti. Encontrámo-nos logo pela manhã. Tu bebias café enquanto fumavas, encostado ao balcão, com um ombro por cima e as costas nele encostadas como se estivesses à minha espera. Passei por ti. Disse-te bom dia. Não me respondeste, limitaste-te a ver-me passar. "Olha a boneca a falar para o boneco!", pensei.

Viamo-nos todos os dias. Olhavas-me. Eu olhava-te de volta. Não nos falávamos. Havia um fosso entre nós que parecia afundar-se a cada dia que passava. Quando falavas com alguma das minhas amigas e me aproximava, afastavas-te a passos rápidos. Habituei-me rapidamente. Deixei de me importar e de me vestir para ti.

Contra todos os prenúncios, certo dia, resolveste mudar de lugar a Matemática. Levantaste-te e falaste com a professora enquanto todos ouvíamos. Disseste que sentias bastantes dificuldades e que eu seria a pessoa ideal para te ajudar... (mente imediatamente num turbilhão)... A senhora partiu do princípio que eu estaria a par dos teus planos e aplaudiu de pé a tua força de vontade e o nosso trabalho em equipa. Enquanto ela nos elogiava, fizeste aquele sorriso que te caracteriza e piscaste-me o olho. Quando te sentaste, puseste a mão na minha perna e disseste: "Já está! Tinha que o fazer".

Eu expliquei-te a matemática. Tu ouvias-me como se olhando para a minha cara viajasses. No teste seguinte, eu tive 91%; a tua negativa transformou-se num 94%. A professora brincou, enquanto entregava os testes, que agora era a tua vez de me ajudares. Roçaste a tua mão na minha, entrelaçaste o pé com o meu e murmuraste "Obrigado". E passei a vestir-me para ti novamente.

(to be continued)

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Despontar... part I


Foi numa bela tarde de Setembro que te conheci. Fim de Verão, a poucas horas do pôr-do-sol, ainda estava calor. Eu usava uns calções com machinhos e uma camisola de alças. Entraste extravagante pela sala. Vinhas atrasado. Viria a descobrir que te atrasavas sempre, mesmo que já tivesses chegado. Eras uma daquelas pessoas que não passam despercebidas. Pele morena, acariciada pelo sol, um sorriso sacana, orgulho para dar e vender, penteado da moda. Calçavas umas All-Star brancas, jeans heavy-used rasgados e uma t-shirt branca, larga, com um "FUCK!!!" a letras pretas.

Paraste à frente do quadro. Olhaste à volta. Olhaste-me. Seguiste na minha direcção, sentaste-te na mesa ao meu lado e murmuraste com um ego do tamanho de um estádio de futebol: "Tás a olhar para mim, boneca?" - Corei violentamente... o meu coração disparou e soube-o imediatamente. Não podia ser ele, pensei. Odiei-o.

Pensei no quão dolorosa seria a minha vida dali para a frente, obrigada a conviver diariamente com um engatatão, convencido de merda. Ele reparou que os meus pensamentos eram para com ele: "Não precisas de ter vergonha. Já percebi que gostaste de mim... eu também gostei de ti, embora sejas um bocado beta".

As horas arrastaram-se ao teu lado. Tentei ouvir a pessoa que discursava, mas só ouvia o nervoso coração no meu peito e a tua voz na minha cabeça. Sentia a face quente de embaraço e os olhos faiscavam de raiva pelo quanto tu te sentias inatingível e superior. Foi quando a apresentação acabou. Já fora da sala, olhaste-me de cima abaixo e disseste: "Ficas ainda mais bonita enfurecida. Vemo-nos amanhã. Traz uma roupa decente"! - Urghr, cabrão!



(to be continued)