Na terra vermelha, um pouco antes do sol nascer, ainda Inet caminhava exausta, pés descalços, túnica branca, em busca de um refúgio, sem saber para onde se dirigir. Havia fugido assim que o sentimento de pânico se desvaneceu o suficiente para lhe permitir mover-se. Saíra a correr sem bater a porta e sem olhar para trás. Aventurara-se pelo deserto e fugia tão depressa quanto uma mulher devastada e só na noite poderia fugir naquele local inóspito. Nem se lembrara dos riscos que corria passando a noite em lado nenhum. As hienas, ouviu-as rindo por perto, mas continuava a andar como se não passassem da banda sonora adequada ao terror que acabara de experienciar. O nó na garganta, o sabor a sangue nos lábios, fazia com que as pernas andassem mais rápido e o frio obrigava-a a continuar.
Conhecia Imhotep desde sempre e amava-o como nunca havia conseguido amar nenhum outro, mas nunca pensou que o fizesse. Nunca pensou que tivesse coragem. Nunca suspeitou que poderia ser essa a sua vontade.
Que fiz eu?, pensava angustiado, desesperado, àquela hora, Imhotep. Olhos negros rasos de água, túnica vermelha de sangue, olhar no infinito vendo o nascer do sol. O cheiro daquela mulher enlouquecia-o, o seu olhar esguio deixava-o zonzo, a suavidade que morava na sua pele morena, arrepiava-o. Ao vê-la, os seus sentidos despertavam, o seu cérebro ficava por sua conta e perdia a noção do que os rodeava, vendo tudo o mais embaciado. E agora tinha ido longe demais. Tinha feito o que nunca ninguém que conhecesse ou tivesse ouvido falar ousara fazer. Não a tornaria a ver. Não. Isso era certo. A morte pendia sobre eles com um sorriso sagaz de quem faz justiça, de quem castiga quem desafiou os deuses.
Ambos culpavam Ísis pela maldição que lhes coubera. Aquele amor entre eles. Aquele desejo que rasgava a carne e se lhes alojava nos ossos. Com todas as forças em vão lutaram. Era tarde. Já nada os podia salvar e a morte mereciam-na.
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Ísis
(to be continued)
Publicada por S. à(s) 21:15 17 comentários
Etiquetas: Ísis
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