quinta-feira, 2 de outubro de 2008

poesia - esta é a minha favorita... não sei bem porquê, mas diz-me algo...

Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade

Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós

Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas

Ruy Belo

com foto a condizer - desconheço a autoria da dita:

casas

8 comentários:

Vítor disse...

Que belo, Ruy... como sempre... será nas casas o "lugar onde o coração se esconde"?

Carlos Lopes disse...

Lindo! O filho mais novo do Rui Belo foi meu colega na escola primária. Hoje em dia é um conceitoado fotógrafo. Lembro-me de ir a casa dele (em Queluz) e de ver estantes de livros por todo o lado. A mãe do Duarte é professora na Universidade e, acima de tudo, uma senhora fabulosa. Kiss de bom dia.

Clarice disse...

Muito bonito, Sofia!
Conheço os filhos do Rui Belo, a mãe deles foi minha professora de Francês no liceu, pessoas reflexo da sua casa e por isso destas tão belas palavras...
As casas, gosto muito de casas, prendo-me a elas, gosto de as espreitar estando do lado de fora, e gosto de janelas grandes para olhar do lado de dentro...
As casas são cheiros, sons e a alma das pessoas.

Um beijinho "espreitado"! :)

Vício disse...

por vezes o subconsciente faz-nos gostar de diversas coisas... casa representa segurança, conforto (entre outras coisas)! será que é uma carência?

aespumadosdias disse...

Também gostei.

Cati disse...

:)

Gostas pouco... :D

Um beijo*

.::rOcK_aNgEll::. disse...

Gostei muito do poema...
Isso fez-me lembrar a musica do Rui Veloso onde ele diz: "Nunca voltes à casa, onde ardeste de paixão...só encontrarás erva rasa, por entre as larges do chão..."
*****

gianna disse...

Sofia, gostei. Do poema, da sua escolha.
Embora, pessoalmente, prefira

«Em Portalegre, cidade
Do Alto Alentejo, cercada
De serras, ventos, penhascos, oliveiras e sobreiros
Morei numa casa velha,
À qual quis como se fora
Feita para eu Morar nela...

Cheia dos maus e bons cheiros
Das casas que têm história,
Cheia da ténue, mas viva, obsidiante memória
De antigas gentes e traças,
Cheia de sol nas vidraças
E de escuro nos recantos,
Cheia de medo e sossego,
De silêncios e de espantos,
- Quis-lhe bem como se fora
Tão feita ao gosto de outrora
Como as do meu aconchego.
...etc, etc...»
J. Régio

Um sorriso carinhoso para si