terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Será?

Naquela manhã acordei decidida. Comi mal e à pressa. Tomei um duche rápido. Vesti-me como quem não quer saber. Para onde ia, não importava. O que ia fazer era demasiado importante. Saí de casa esperançada. Se corresse, talvez ainda te apanhasse. E tinha tanto para te dizer. Tanto que precisava de te explicar.

Toquei-te à campainha. Ainda estavas em casa. Abriste e eu permaneci à porta, calada. Esqueci as palavras escolhidas pelo caminho. Esqueci o sorriso planeado para te agradar. Só sentia o calor dos teus olhos espantados em mim. O olhar fugiu-me para o chão, envergonhado por não saber o que fazer, com medo de revelar demais. Obriguei-o a voltar ao objecto do meu desejo e lá estavas tu ainda parado como quem não percebe.

Perguntei se podia entrar. Anuiste com a cabeça e dirigiste-te à sala, onde com o olhar fizeste sinal para que me sentasse. Sentei-me na poltrona à contra-luz, de costas para a alta e antiga janela do teu apartamento. Sei que assim ficava em vantagem. Não verias mais do que as sombras nos meus olhos. Sem perguntas, serviste-me uma bebida. Acendi um cigarro, puxei para mim o cinzeiro e levei o copo à boca. "Vim para te falar". Levantei-me nervosa, afastei o cortinado e soltei uma baforada de fumo pela janela aberta.

Avançaste para mim. Retiraste o copo da minha mão tocando com a tua ao de leve na minha. Dum só trago bebeste o que me havias oferecido. Com um dedo habilidoso a música começou a tocar. Arrancaste-me um sorriso tímido e dançámos. Dançámos como nunca o havíamos feito antes. Pelo menos eu nunca havia dançado assim, sem sentir o meu peso, sem consciência do meu corpo.

Depois paraste. Tudo parou. Só a música não. Já não estavámos na sala. Deitaste-me sobre o colchão, passeaste as tuas mãos por mim e amaste-me como quem dança. Abraçaste-me durante muito tempo. Tive que lutar para me soltar e poder tomar um banho.

Quando acabei, o bilhete na porta: "Não telefones. Não voltes. Não penses. Não"!

15 comentários:

Merchi disse...

... "amaste-me como quem dança" ... lindo!

Cati disse...

Hmmm... this sounds kind of familiar... Don't know why!!! Or do I?!?...

Perfeito... perfeito...

Mas tudo sempre pensa.
Tudo sempre volta.
Não há volta a dar!!!

(mas que m"##$%a de comentário... percebes?!?)

Big Kiss...

...e o som?!? Aiii...

Carlos Lopes disse...

Belíssimo, sofia.

....

E o teu comentário ao meu poema mereceu um comentário meu.

Professorinha disse...

Como não? Não?...

Não penses...

Beijos

Vício disse...

ainda bem que não comeste muito!
é perigoso para a digestão!

The Wolf disse...

Depois de tanto, não? hummm

Beijo

Belzebu disse...

Não? Mas que raio de mau feitio! Então estava a portar-se tão bem e tinha que se armar em parvo? Não terás gasto água a mais durante o banho?

ehehh!! Aquele abraço infernal!

Sadeek disse...

Caraças....ó mulher....tu estás cada vez melhor mas não há uma vez em que a coisa acabe bem?! ;)

:P

BEIJOS

Francis disse...

beber logo de manhã dá nisto.

mas isto é tipo iô-iô ?
vai e volta ?

ps : é justo dizer que o teu relato é extraordinário...

Joseph disse...

Sofia
Olá

Esta é a Sofia que eu gosto de ler, e gosto de ter como amiga, porque os amigos verdadeiros amam-se com as suas virtudes e com os seus defeitos; E cá estamos para ajudar se fôr preciso ou para aplaudir sempre, sempre.

Mas, aquele final... Há sempre qualquer coisa....

Se vieres ao meu espaço vais gostar do post de hoje.

Beijokas**

marco disse...

lindo!


gande poetisa

SILÊNCIO CULPADO disse...

Será que a paixão se sacia
na negação que a alimenta? Será que o amor para permanecer tem que fazer sofrer?

Gostei Sofia

Um beijinho

AJO disse...

Lindo Sofia... mito bonito. Gosto muito de ler o que escreves, muito mesmo.
Bjs e boa semana

redjan disse...

No comments Sof ... apenas

FANTÁSTICO !!!!!!!!!

htsousa disse...

Poderia ser uma continuação do Pecados, anos mais tarde... A mesma paixão enlouquecedora, a mesma determinação, o mesmo render. Gosto da personagem!

Beijinhos, estás a ficar uma Mestra com as palavras.